segunda-feira, 17 de julho de 2017

tá impossível.

passeio pela ansiedade
não roo unhas
não puxo os fios de cabelo
não consigo comer compulsivamente
nem parar de comer drasticamente
olho o horizonte frio
cinza
o barulho do vento
e mais do que nunca
estou onde não quero estar

"a cabeça é a ilha"

não dá para esquecer

"a cabeça é ilha"

me martirizo há dias
penso nos cigarros não-fumados
no quarto vazio
na metade da cama amputada
no chão frio demais para os pés
penso nos bilhetes encontrados, lidos, relidos, rasgados

ei, você aí? tudo bem, né? a vida vai bem. obrigada. não, que isso, obrigada você.

sinto me afundar na cadeira e ao mesmo tempo flutuar como os fantasmas se divertem
contenho as lágrimas
mas a dor é real
sinto fisicamente o coração acelerado
a boca seca
os lábios ressecados
a pressão traz o coração à boca

escuto a música

fingir
falsear
esconder
entro - pleonasticamente - para dentro
peço o silêncio do meu cérebro
mas, mais do que nunca, a cabeça grita
grita
grita

e eu só queria paz.
e eu só queria paz.

dá pra ser ou tá difícil?

alguém ecoa: impossível. tá impossível.

"a cabeça é a ilha".

quinta-feira, 15 de junho de 2017

cigana

chego desconfiada.
o vestido rodado e azul me aproxima de minha mãe. são nos pequenos gestos que as diferenças existem.
há velas ao lado direito. conto duas.
tenho desconforto, porém estou aberta
pés descalços
álcool para limpar braços, pernas e cabeça. não sabia que espíritos gostam de higienização. porém, apenas sigo o bonde.
sento
desconfio
fico ressabiada
começa
há velas
branco
cor
um castiçal carrega uma amarela e uma verde. não entendo a simbologia das cores.
sigo o ritual.
cruzo as pernas
"descruze", diz alguém atrás de mim
em alguns momentos, é como se segurasse o choro.
me chamam
sento
olhos nos olhos
"está confortável?"
digo não.
"acontece quando não conhecemos direito as coisas. o medo cega"
faço que sim
segue um diálogo que a cabeça já não me deixa lembrar
me colocam um véu azul na cabeça
há certa atração pelo cigano
sou cigana
espanhola
olhos azuis
porém, sei disso apenas no dia seguinte.
sou chamada mais uma vez
termina
é como se tivesse inebriada
diferente da infância, acolho
estou aberta.

estaria o tempo trazendo resiliência?
não sei.
apenas reflito que começo apenas a viver o começo de um novo futuro.

só não sei qual.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

a mesa está posta e sinto que você não vem
o livro, deixado naquele mesmo capítulo, já sente o pó se acumulando nos vãos das palavras

palavras

sinto o silêncio invadir a sala como o sol: sem pedir licença, entrando pelos nossos poros e dizendo olá para a parede recém-pintada

sinto que você não virá
e você, de fato, não vem

seria o trânsito?
uma batida por desatenção porque passamos tempo demais olhando pra baixo, no celular?

não sei. respondo a mim mesma as perguntas que me faço.

em dias como esse, resta apenas ser

ser significa o quê?
volto a me questionar
e, reflito:
aí está o problema. perguntas demais.

volto a mim e, como com o celular, olho pra baixo.
dessa vez não procuro mensagens, respostas, joguinhos de passar o tempo.
olho diretamente pra mim e percebo que não estou olhando "pra baixo", estou olhando pra dentro.

repito o exercício em séries infinitas
continuo olhando pra mim
desfaço a mesa
fecho os livros
o sol diz adeus

durmo e amanheço em mim.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O despertar

Há 10 anos escrevo aqui. Estava refletindo dia desses - e até escrevi algo que deixei arquivado, pra variar um pouco - quantas coisas passei desde que comecei o blog, lá em 2007.

Não tem como negar que amadureci. Não tem como negar que, se antes expunha o blog, compartilhava, deixava todo mundo "me ler", hoje ele é um espaço quase nunca compartilhado, restrito e com uma importância mais pessoal e intimista.

É claro, ele está na internet e vejo os acessos que cada postagem tem, mas entendo que o fato de não divulgá-lo o torna mais meu do que de qualquer outro ser humano que passe por aqui.

Sempre fui fechada. Sempre fui pra dentro. Sempre tive meu universo particular. Sempre fui uma filha ausente, mesmo presente dentro de casa. Talvez não tenha sido sempre. Tenho uma memória de infância, na casa do meu tio preferido, meu tio Antônio. Eu estava sentada na mesa, na casa dele em Goiânia, e ele virou pra minha mãe e falou algo parecido com: o que aconteceu com a alegria dela? Não foram exatamente essas palavras. Mas é como se, de repente, tivesse passado por algum portal.

Não era tristeza. Não me falta alegrias na vida. Mas, de repente, como diz um trecho de uma carta da Frida: "Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminando a Terra!".

Meu tio talvez viu algo que ainda estava imperceptível. Pra mim, ao menos.

Hoje, vendo de maneira distante, entendo como é difícil conviver e criar seres humanos. Somos todos frutos de passados difíceis ou de memórias perturbadoras. E somos todos frutos desses passados convivendo com outros passados e ranços que se misturam. Como diz minha amiga Luciana, somos todos "dodóis da cabeça". De alguma forma, alguns se expõem mais e outros menos.

Apesar de "pra dentro", sempre fui transparente. Tenho outra memória, já no Ensino Médio, de uma professora falando: "não adianta falar uma coisa, se eu estou vendo outra em seu rosto". Nunca soube fingir sentir algo que não sinto. Só que, muitas vezes, falseava o sentimento. Em outras, não tinha tato o suficiente pra saber como sentir. Estranho? Talvez, mas sempre quis lidar melhor comigo e com o outro e acabava trocando os pés pelas mãos.

Quando era apego, pensava que era amor.

Quando pensava que era amor, era mais um relacionamento abusivo.

Leio e leio e leio textos budistas, que sempre li, desde os 14 anos, e tento absorver. Mas, meu deus!, como é difícil.

De novo:
como
é
di
fi
cil.

O principal passo, percebi, é se entender. É ser melhor pra você. Só que evolução não vem assim, da noite pro dia. Assim como não aprendi a ler da noite pro dia, assim como não aprendi a andar da noite pro dia.

O meu despertar pra mim mesma vem quando eu observo que exatamente a um ano atrás eu estava de frente ao Oceano Pacífico, na casa mais linda que o Neruda poderia ter construído pra ele, e estava mal, estava triste, estava acabada. Era resultado acumulado das "cabeças dodóis" que se uniram e, ao invés de se ajudarem, se destruíram, deixando amor se transformar em apego. Aliás, era amor ou era apego?

O meu despertar vem de entender que, sim, é duro, é difícil, é lento, mas é necessário dar tempo ao tempo.

O meu despertar vem de me policiar, de olhar pro céu (minha válvula de escape em dias de incerteza), de pedir ajuda, quando necessário.

Pedir ajuda foi uma das lições fundamentais que aprendi no último ano. Até então, achava que dava conta. Mas não, nem sempre a gente dá.

Há 10 anos eu começava você e hoje eu percebo que era só um começo de um jornada que é cada vez mais interna.

Uma jornada.

E como toda jornada, têm tropeços e recomeços.

A caminhada é longa.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

entre sorrisos e lágrimas

abri os olhos e entendi que foi só o cheiro que ficou.
olho pro travesseiro ao lado, frio pela falta de corpo
com o sorriso misturado às lágrimas que ficaram.
fecho os olhos e lembro que há algumas horas estava sendo muito feliz.
e continuo.
lembro do calor
das pintas
das marcas
dos raios de sol nos cabelos
raios de sol na minha vida
sorriso aberto no meu coração
clara como a luz da manhã invadindo o quarto de pedras
a casa de quadros
você traz tudo que o sol é capaz de trazer: vigor, olhinhos fechados, sorriso aberto, certezas, dúvidas, aconchego
vitamina D
vitalidade
saudade latente
amor.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

são nos pequenos gestos que os grandes amores vivem.
pensei,
chorando de felicidade pela salada de flor.

quarta-feira, 29 de março de 2017

desimportâncias.

acordei às 5h55. fiquei na cama até as 06h16.
tomei banho.
preparei o café.
vesti a roupa, passei o batom vermelho.
cheguei.
acidente na porta do trabalho.
moto com carro. quem tinha razão?
a chuva veio empatar o almoço.
o almoço veio empatar a dieta.
a dieta veio empatar a vida.
e de empates e empates,
zero a zero ninguém viu a vida passar.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

acredito claramente que é a dor que ensina. aliás, acredito que é a dor que amadurece.
não fosse a dor - física, quando a enxaqueca vem, ou de amor, quando ele se vai - não teria chegado até aqui.
a dor ensina
a tristeza ensina
o amor transborda.

sim, o amor apaga, vez ou outra, todas as imperfeições alheias.
é ele que faz tentarmos ir além. ficarmos vivos. não nos afogarmos nessa mediocridade humana.

acontece que, nem sempre, é o amor que vem. nem sempre é o amor que chega. nem sempre é ele que basta. nem sempre existe conexão com o outro. amor sozinho não basta. é preciso que seja mútuo, compartilhado, vivo.

já fiz dezenas de cartas de despedidas e em nenhuma disse adeus.
já disse que odiava sem nem saber o que significava isso de verdade.
até que parei pra me conhecer.
e vi claramente a bagunça mental que eu sou.
e aceitá-la não faz com que me sinta melhor
faz apenas com que eu me sinta eu
entre desorganizações
tristezas
dores
e amores.

minha carta é de chegada.
de mim para mim, digo:
sim.



domingo, 12 de fevereiro de 2017

o barulho do silêncio

Gostaria de lhe dizer que as coisas são passageiras
Que uma hora, bem ou mal, tudo vira lembrança
Que ali, alguns quilômetros a frente, estará tudo bem

Mas, a verdade é que não é possível saber
O tempo não cura as coisas
Ele, simplesmente, faz a gente esquecer as coisas

As coisas
Os atos
As pessoas

Vai ficando tudo meio turvo
Meio embaçado
Até sumir no meio da paisagem

Gostaria, também, de dizer que toda essa agonia
Vai ser curada
Que toda essa doença
Vai ser dizimada
Que vida é assim mesmo

Gostaria
Muito
De dizer pra você, que sou eu mesma,
Que é normal
Que os traumas
As infelicidades
As cicatrizes
As tatuagens
Tudo
É normal

mas
sabe?
não vou dizer nada
atrevo-me ao barulho imenso que o silêncio faz.




o que é inevitável na vida?
.i wanna touchable things.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

cansei

cansei
cansei dos meus livros
do meu edredom macio
do ar condicionado gelado

cansei de ver meus amigos doentes
de ver o ponto às 8 e às 18
de ler e rabiscar na natureza selvagem
de ouvir eddie vedder

cansei de cumprir um cronograma
de chorar com e sem causa
de estar perdida
de procurar cura nessa sociedade doentia

cansei de ficar angustiada
de ler e ler e ler e ler
e ver tanto sofrimento
tanta superação

por que temos que nos superar a cada minuto?
ser exemplo de coisas idiotas
de superficialidades bobas

cansei de cumprir tabela
de ter que ter
ter um carro
uma casa
um apartamento, é mais seguro
falando em seguro
você tem?
seu carro tem?
meu carro é mais seguro do que eu

cansei de ter que responder perguntas que eu sequer quero escutar
de interpretar
fingir
sentir
ferir
morrer cada dia um pouquinho
de viver cada dia um pouquinho


cansei.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

from girls.

"take some time off from becoming who you are"

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

tijolo por tijolo

li, ainda hoje, que "amor é reconstrução"

não posso deixar de concordar.

acho que é sempre mais fácil começar do início.
o sonho
a ideia
o papel
a forma
a base
a laje
a decoração
a chegada naquela casa tão nossa
com cheiro tão novo
com os quadros pendurados na sala milimetricamente medidos
e, depois,
banido da sala porque o olho da Monalisa dá medo e eu não consigo dormir a noite

e aí se rearranja
pega o quadro
coloca no outro quarto
tira daquele lugar aquela foto ali
coloca ela, então, no olhar que antes pertencia à Monalisa

aí vem a briga
aí vem o gozo
aí vem a janta
e em seguida a louça pra lavar

e vem rotina
vem conta
vem muito talão e pouco salário

e vem o choro do nada
claro,
sempre o choro
e sempre
supostamente
do
nada

e vem
e vai

e sai da casa
e leva o quadro da Monalisa
e muda
e muda de novo
e enfia o quadro em cima da estante
e pega livro por livro
e pega choro por choro
e pega vida por vida
e pega medo por medo
e pega força por força

e quebra copo
compra louça
desfaz as caixas
refaz a vida

mas, e o amor?

reconstrói o amor

pega aquela receita de juntar os cacos dos copos, as lágrimas e o olhar da Monalisa.
pega também aquele livro que eu andei lendo e chorei de soluçar
pega sua louça
a toalha de margaridas
as luzes
as dores
os sonhos
as ideias
os papéis
as formas
a base
a laje
a decoração
junta tudo de nós e mistura pra nosso
transforma isso
em uma massa
composta de fé
esperança
espera
e
saudade.

feito isso, beba a reconstrução do amor.

mas beba todo dia
de pouquinho
bem pouquinho
levinho
pra lembrar que amor é isso
às vezes cai
nas outras cola
mas,
sempre
reconstrói.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

.o amor acaba.

"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de 
cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas 
sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não 
floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no 
trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o 
amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fosse melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba".

Paulo Mendes Campos. 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Lu.

Vi você renascendo inúmeras vezes
Chorei em algumas delas
Renasci junto em muitas

Te vi perdida
Como eu
Apaixonada
Como eu
Bêbada
Como eu
Chorando desesperada
Como eu

Vi quando você olhava com olhos de
"não é esse"
E, será alguém, algum dia?

Agradecemos juntas pela beleza da vida
E choramos em diversas vezes pelo passado

E eu estava lá
Quando ele nasceu
Tão pequeno e tão enorme
Tão cheio de amor
Pra receber
E pra doar

E você estava lá
Esperando na porta
Com o carro aberto
E minha mala cheia de confusões

Elas não passam, né?
As confusões
As despedidas
E
mais fundo ainda:
o amor.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Romulo

Tenho pensado muito em você, meu amigo.
Dia desses, organizando os livros, encontrei os seus. Todos lindamente autografados, com meu nome escrito no começo e o seu assinado ao final.
Sua letra me deu um misto de tristeza e alegria.
Até hoje lembro da sua casinha no Boa Esperança, com cheiro de café e amontoados de livros escritos e feitos por você. Você fez seus primeiros livros. Trabalho manual e intelectual invejável.
Lembro de um bem pequeno, com folhas que lembram papel de pão.
Aliás, nem tem mais aqueles papéis por aí. Tem? Eu não sei. Também não compro mais muito pão.
Você saiu de sua cidade, mas de alguma forma, Minas nunca saiu de você.
Não consigo parar de chorar. Alguns dias são mais cinzas que outros, Romulo. Mas é mais ainda difícil quando parte da sua cabeça é muito cinza por dentro.
Folheio os livros.
Gosto daquelas páginas amareladas.
Sorte existir Ramon em nossas vidas. Na sua vida.
Nosso último encontro foi tão rápido. Só peguei o livro, tirei uma foto e logo me fui.
Tenho saudade de você aparecer por aqui e escrever pra mim.
Tanto que só estou conseguindo escrever pra você passado tantos meses. Anos.
Confesso que não é fácil seguir escrevendo como me pediu.
E ainda dói saber que você não me lê mais.
Ou,
quem sabe
me lê.

Me avise: por aí você tem escrito? O céu é mesmo tudo que contam? Ou você resolveu ir para outro lugar?


Isa.


PS: Tenho certeza que o paraíso é dentro da cabeça da gente.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

tenho substituído

há dias não consigo tirar um texto de mim
penso em tudo
te li inteira
te vi
senti

mas nada sai

você
gosto de café
ovos mexidos
e amor

você
cor de sol
cheiro de mar
força da natureza

tento escrever
não sai nada

penso diariamente
não tem palavra
memória falha

respiro fundo
fecho os olhos
escuto músicas
lembro de nós

mas não sai nada

você
toque suave
dedos finos
pernas longas

tento escrever
tento
tento
não sai nada

você
me tirou as palavras

e, desde então,
tenho substituído por saudades.