quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

tenho substituído

há dias não consigo tirar um texto de mim
penso em tudo
te li inteira
te vi
senti

mas nada sai

você
gosto de café
ovos mexidos
e amor

você
cor de sol
cheiro de mar
força da natureza

tento escrever
não sai nada

penso diariamente
não tem palavra
memória falha

respiro fundo
fecho os olhos
escuto músicas
lembro de nós

mas não sai nada

você
toque suave
dedos finos
pernas longas

tento escrever
tento
tento
não sai nada

você
me tirou as palavras

e, desde então,
tenho substituído por saudades.


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

eu

eu
tantas vezes nada
todas vezes muito
tantas vezes pouco
muitas vez escuro

eu
primeira pessoa
pessoa nenhuma
terceira pessoa
fragmento soturno

eu

eu

minha mágoa
minha tristeza
minha solidão

só minha
só eu

eu

só.

terça-feira, 12 de julho de 2016

- quando foi a última vez que você teve a sensação de pertencimento?


- nunca.

terça-feira, 28 de junho de 2016

quantas vezes tive que mergulhar em mim pra entender que 
às vezes 
você mergulha de cabeça
no raso das pessoas

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Isla Negra

naveguei nas águas frias e profundas do Pacífico
chorei na casa de Neruda
enchi meus pés de areia
e nem o barulho das conchas batendo contras as pedras
diminuíram minha dor naquele momento

estava sangrando
a ferida estava completamente aberta

respirei, muitas vezes, profundamente
naquele dia frio, com sol a pino, de uma manhã chilena

queria desaparecer
a cada passo, queria apenas desaparecer

tentava entender as loucuras do poeta e as minhas
quantas coleções
quantas confusões
quantos amores

Neruda amou enlouquecidamente
e foi ali que escreveu "Confesso que vivi"

não entendi na ocasião todo aquele emaranhado de bugigangas
sim, eram bugigangas
afinal, para que servem aquelas coisas, se não para acumular poeira e saudades?

fui sangrando pelo caminho
continuei sangrando com o passar dos dias
longos e terríveis dias

até que
o vento fez a porta de vidro se arrebentar:
estava viva
estou viva
quero estar viva

olhei pra trás e o poeta estava complacente
ao lado da mão da amada, olhando o mar

estava pleno

estava plena

entendi, então, que é preciso sangrar
ferir
acumular poeira nos cantos
ter saudades
para, então,
jogar fora as bugigangas

fechei a porta, já arrebentada,
e segui.

não precisei olhar para trás
estava tudo na minha frente:
poesia, mar, céu, areia, vida.




terça-feira, 7 de junho de 2016

Li

nos últimos tempos muitos têm ido embora:
sentimentos
ações
pessoas

sua partida, no entanto, veio como uma bomba. ou, diria eu, um infarto? algo de dentro pra fora, que muito dói, mas que tanto ensina.
meu pai, quando teve o dele, perdeu 30% da capacidade do coração
mas, não seriam os 70% restantes os novos 100%?

afinal, quem é ele?
pisciano nato. tal qual você: um raio de sol, uma risada escancarada, uma luz em dias tão escuros. falas tão precisas em momentos de ruptura.
sim, você me salvou.
me colocou os pés na terra. na Terra.
me tirou daquele país estranho - e lindo.
mal sabe você que suas palavras naquele dia vinham junto com a força dos Andes: a Cordilheira estava na minha frente.
talvez ela, sábia, experiente, gigante, tenha mostrado aquele dia algo que só vejo agora: quão pequenos somos nós diante de tudo aquilo, naturalmente e belamente exposto ao sol, chuva, neve, vento, homem.

suas palavras me salvaram e hoje, com sua partida, me sinto tão refém delas: palavras.
choro de felicidade, mas também com uma agonia inerente aos signos de Terra: não gosto de partidas.
sofro
faço drama
fico sem ação

mas não confunda nada disso com posse, ciúmes
não
é compreensão de que a gente foi feito mesmo é pra isso: pra voar, pra dar voos longos, mas também pra voltar pro ninho.

e que bom é voltar pros braços de quem um dia a gente disse um adeus sem saber direito quando voltaria "pra sempre".

sempre.

você
sempre
estará
aqui

mesmo aqui significando tantos lugares.

meu aqui é agora: te amo e te desejo um voo lindo.
lindo como sua risada escancarada.
como você

como a vida.

então: pela vida, voe!

terça-feira, 31 de maio de 2016

aí está

aí está a vida:
não é para todos
descasca muitos
veste poucos
resgata alguns

um barco naufragando
pode ser a oportunidade de aprender a nadar
ou
simplesmente
deixar-se levar

é preciso compreensão

e é
muitas vezes
o que falta.