sexta-feira, 19 de maio de 2017

a mesa está posta e sinto que você não vem
o livro, deixado naquele mesmo capítulo, já sente o pó se acumulando nos vãos das palavras

palavras

sinto o silêncio invadir a sala como o sol: sem pedir licença, entrando pelos nossos poros e dizendo olá para a parede recém-pintada

sinto que você não virá
e você, de fato, não vem

seria o trânsito?
uma batida por desatenção porque passamos tempo demais olhando pra baixo, no celular?

não sei. respondo a mim mesma as perguntas que me faço.

em dias como esse, resta apenas ser

ser significa o quê?
volto a me questionar
e, reflito:
aí está o problema. perguntas demais.

volto a mim e, como com o celular, olho pra baixo.
dessa vez não procuro mensagens, respostas, joguinhos de passar o tempo.
olho diretamente pra mim e percebo que não estou olhando "pra baixo", estou olhando pra dentro.

repito o exercício em séries infinitas
continuo olhando pra mim
desfaço a mesa
fecho os livros
o sol diz adeus

durmo e amanheço em mim.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O despertar

Há 10 anos escrevo aqui. Estava refletindo dia desses - e até escrevi algo que deixei arquivado, pra variar um pouco - quantas coisas passei desde que comecei o blog, lá em 2007.

Não tem como negar que amadureci. Não tem como negar que, se antes expunha o blog, compartilhava, deixava todo mundo "me ler", hoje ele é um espaço quase nunca compartilhado, restrito e com uma importância mais pessoal e intimista.

É claro, ele está na internet e vejo os acessos que cada postagem tem, mas entendo que o fato de não divulgá-lo o torna mais meu do que de qualquer outro ser humano que passe por aqui.

Sempre fui fechada. Sempre fui pra dentro. Sempre tive meu universo particular. Sempre fui uma filha ausente, mesmo presente dentro de casa. Talvez não tenha sido sempre. Tenho uma memória de infância, na casa do meu tio preferido, meu tio Antônio. Eu estava sentada na mesa, na casa dele em Goiânia, e ele virou pra minha mãe e falou algo parecido com: o que aconteceu com a alegria dela? Não foram exatamente essas palavras. Mas é como se, de repente, tivesse passado por algum portal.

Não era tristeza. Não me falta alegrias na vida. Mas, de repente, como diz um trecho de uma carta da Frida: "Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminando a Terra!".

Meu tio talvez viu algo que ainda estava imperceptível. Pra mim, ao menos.

Hoje, vendo de maneira distante, entendo como é difícil conviver e criar seres humanos. Somos todos frutos de passados difíceis ou de memórias perturbadoras. E somos todos frutos desses passados convivendo com outros passados e ranços que se misturam. Como diz minha amiga Luciana, somos todos "dodóis da cabeça". De alguma forma, alguns se expõem mais e outros menos.

Apesar de "pra dentro", sempre fui transparente. Tenho outra memória, já no Ensino Médio, de uma professora falando: "não adianta falar uma coisa, se eu estou vendo outra em seu rosto". Nunca soube fingir sentir algo que não sinto. Só que, muitas vezes, falseava o sentimento. Em outras, não tinha tato o suficiente pra saber como sentir. Estranho? Talvez, mas sempre quis lidar melhor comigo e com o outro e acabava trocando os pés pelas mãos.

Quando era apego, pensava que era amor.

Quando pensava que era amor, era mais um relacionamento abusivo.

Leio e leio e leio textos budistas, que sempre li, desde os 14 anos, e tento absorver. Mas, meu deus!, como é difícil.

De novo:
como
é
di
fi
cil.

O principal passo, percebi, é se entender. É ser melhor pra você. Só que evolução não vem assim, da noite pro dia. Assim como não aprendi a ler da noite pro dia, assim como não aprendi a andar da noite pro dia.

O meu despertar pra mim mesma vem quando eu observo que exatamente a um ano atrás eu estava de frente ao Oceano Pacífico, na casa mais linda que o Neruda poderia ter construído pra ele, e estava mal, estava triste, estava acabada. Era resultado acumulado das "cabeças dodóis" que se uniram e, ao invés de se ajudarem, se destruíram, deixando amor se transformar em apego. Aliás, era amor ou era apego?

O meu despertar vem de entender que, sim, é duro, é difícil, é lento, mas é necessário dar tempo ao tempo.

O meu despertar vem de me policiar, de olhar pro céu (minha válvula de escape em dias de incerteza), de pedir ajuda, quando necessário.

Pedir ajuda foi uma das lições fundamentais que aprendi no último ano. Até então, achava que dava conta. Mas não, nem sempre a gente dá.

Há 10 anos eu começava você e hoje eu percebo que era só um começo de um jornada que é cada vez mais interna.

Uma jornada.

E como toda jornada, têm tropeços e recomeços.

A caminhada é longa.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

entre sorrisos e lágrimas

abri os olhos e entendi que foi só o cheiro que ficou.
olho pro travesseiro ao lado, frio pela falta de corpo
com o sorriso misturado às lágrimas que ficaram.
fecho os olhos e lembro que há algumas horas estava sendo muito feliz.
e continuo.
lembro do calor
das pintas
das marcas
dos raios de sol nos cabelos
raios de sol na minha vida
sorriso aberto no meu coração
clara como a luz da manhã invadindo o quarto de pedras
a casa de quadros
você traz tudo que o sol é capaz de trazer: vigor, olhinhos fechados, sorriso aberto, certezas, dúvidas, aconchego
vitamina D
vitalidade
saudade latente
amor.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

são nos pequenos gestos que os grandes amores vivem.
pensei,
chorando de felicidade pela salada de flor.

quarta-feira, 29 de março de 2017

desimportâncias.

acordei às 5h55. fiquei na cama até as 06h16.
tomei banho.
preparei o café.
vesti a roupa, passei o batom vermelho.
cheguei.
acidente na porta do trabalho.
moto com carro. quem tinha razão?
a chuva veio empatar o almoço.
o almoço veio empatar a dieta.
a dieta veio empatar a vida.
e de empates e empates,
zero a zero ninguém viu a vida passar.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

acredito claramente que é a dor que ensina. aliás, acredito que é a dor que amadurece.
não fosse a dor - física, quando a enxaqueca vem, ou de amor, quando ele se vai - não teria chegado até aqui.
a dor ensina
a tristeza ensina
o amor transborda.

sim, o amor apaga, vez ou outra, todas as imperfeições alheias.
é ele que faz tentarmos ir além. ficarmos vivos. não nos afogarmos nessa mediocridade humana.

acontece que, nem sempre, é o amor que vem. nem sempre é o amor que chega. nem sempre é ele que basta. nem sempre existe conexão com o outro. amor sozinho não basta. é preciso que seja mútuo, compartilhado, vivo.

já fiz dezenas de cartas de despedidas e em nenhuma disse adeus.
já disse que odiava sem nem saber o que significava isso de verdade.
até que parei pra me conhecer.
e vi claramente a bagunça mental que eu sou.
e aceitá-la não faz com que me sinta melhor
faz apenas com que eu me sinta eu
entre desorganizações
tristezas
dores
e amores.

minha carta é de chegada.
de mim para mim, digo:
sim.



domingo, 12 de fevereiro de 2017

o barulho do silêncio

Gostaria de lhe dizer que as coisas são passageiras
Que uma hora, bem ou mal, tudo vira lembrança
Que ali, alguns quilômetros a frente, estará tudo bem

Mas, a verdade é que não é possível saber
O tempo não cura as coisas
Ele, simplesmente, faz a gente esquecer as coisas

As coisas
Os atos
As pessoas

Vai ficando tudo meio turvo
Meio embaçado
Até sumir no meio da paisagem

Gostaria, também, de dizer que toda essa agonia
Vai ser curada
Que toda essa doença
Vai ser dizimada
Que vida é assim mesmo

Gostaria
Muito
De dizer pra você, que sou eu mesma,
Que é normal
Que os traumas
As infelicidades
As cicatrizes
As tatuagens
Tudo
É normal

mas
sabe?
não vou dizer nada
atrevo-me ao barulho imenso que o silêncio faz.