domingo, 12 de fevereiro de 2017

o barulho do silêncio

Gostaria de lhe dizer que as coisas são passageiras
Que uma hora, bem ou mal, tudo vira lembrança
Que ali, alguns quilômetros a frente, estará tudo bem

Mas, a verdade é que não é possível saber
O tempo não cura as coisas
Ele, simplesmente, faz a gente esquecer as coisas

As coisas
Os atos
As pessoas

Vai ficando tudo meio turvo
Meio embaçado
Até sumir no meio da paisagem

Gostaria, também, de dizer que toda essa agonia
Vai ser curada
Que toda essa doença
Vai ser dizimada
Que vida é assim mesmo

Gostaria
Muito
De dizer pra você, que sou eu mesma,
Que é normal
Que os traumas
As infelicidades
As cicatrizes
As tatuagens
Tudo
É normal

mas
sabe?
não vou dizer nada
atrevo-me ao barulho imenso que o silêncio faz.




o que é inevitável na vida?
.i wanna touchable things.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

cansei

cansei
cansei dos meus livros
do meu edredom macio
do ar condicionado gelado

cansei de ver meus amigos doentes
de ver o ponto às 8 e às 18
de ler e rabiscar na natureza selvagem
de ouvir eddie vedder

cansei de cumprir um cronograma
de chorar com e sem causa
de estar perdida
de procurar cura nessa sociedade doentia

cansei de ficar angustiada
de ler e ler e ler e ler
e ver tanto sofrimento
tanta superação

por que temos que nos superar a cada minuto?
ser exemplo de coisas idiotas
de superficialidades bobas

cansei de cumprir tabela
de ter que ter
ter um carro
uma casa
um apartamento, é mais seguro
falando em seguro
você tem?
seu carro tem?
meu carro é mais seguro do que eu

cansei de ter que responder perguntas que eu sequer quero escutar
de interpretar
fingir
sentir
ferir
morrer cada dia um pouquinho
de viver cada dia um pouquinho


cansei.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

from girls.

"take some time off from becoming who you are"

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

tijolo por tijolo

li, ainda hoje, que "amor é reconstrução"

não posso deixar de concordar.

acho que é sempre mais fácil começar do início.
o sonho
a ideia
o papel
a forma
a base
a laje
a decoração
a chegada naquela casa tão nossa
com cheiro tão novo
com os quadros pendurados na sala milimetricamente medidos
e, depois,
banido da sala porque o olho da Monalisa dá medo e eu não consigo dormir a noite

e aí se rearranja
pega o quadro
coloca no outro quarto
tira daquele lugar aquela foto ali
coloca ela, então, no olhar que antes pertencia à Monalisa

aí vem a briga
aí vem o gozo
aí vem a janta
e em seguida a louça pra lavar

e vem rotina
vem conta
vem muito talão e pouco salário

e vem o choro do nada
claro,
sempre o choro
e sempre
supostamente
do
nada

e vem
e vai

e sai da casa
e leva o quadro da Monalisa
e muda
e muda de novo
e enfia o quadro em cima da estante
e pega livro por livro
e pega choro por choro
e pega vida por vida
e pega medo por medo
e pega força por força

e quebra copo
compra louça
desfaz as caixas
refaz a vida

mas, e o amor?

reconstrói o amor

pega aquela receita de juntar os cacos dos copos, as lágrimas e o olhar da Monalisa.
pega também aquele livro que eu andei lendo e chorei de soluçar
pega sua louça
a toalha de margaridas
as luzes
as dores
os sonhos
as ideias
os papéis
as formas
a base
a laje
a decoração
junta tudo de nós e mistura pra nosso
transforma isso
em uma massa
composta de fé
esperança
espera
e
saudade.

feito isso, beba a reconstrução do amor.

mas beba todo dia
de pouquinho
bem pouquinho
levinho
pra lembrar que amor é isso
às vezes cai
nas outras cola
mas,
sempre
reconstrói.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

.o amor acaba.

"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de 
cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas 
sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não 
floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no 
trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o 
amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fosse melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba".

Paulo Mendes Campos.