segunda-feira, 5 de abril de 2010

brilho eterno com lembranças

"eu sou só uma garota fodida procurando pela minha própria paz de espírito"

e não a encontro









nunca.
a luz apagou-se
e ficou um meio termo estragado

hoje o tempo amanheceu cinza
e o orvalho soube fingir-se orvalho
para esconder o choro calado

sem pingos
sem gotas
sem piado nenhum
o dia passou devagar

como passam devagar moças felizes
como passam devagar antigos amores
como passam a divagar velhos poetas

a atriz tão cheia de si sorri na tela
e eu tão cheia de mim me escondo no escuro

hoje não tem pão velho
e tem menos ainda sorrisos tortos

hoje,
na mistura do dia cinza
frio
e escuro
tem toda a tristeza de uma vida
esquecida no canto de um quarto.

e fim.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

definições

não foi assim que planejei: nascer torta, sem rumo. ouvi que fechar a porta de uma vez é a melhor saída pra não deixar resquicíos. é mentira. funciona mais ou menos como brilho eterno de uma mente sem lembranças, não adianta. não é o polegar opositor que nos faz homens, o que nos faz homens (ou nos faz menos homens) é exatamente a memória - e nem adianta vir com o papo da memória do elefante. é a memória que nos alimenta e nos destrói. é ela que não me deixa dormir. ou, pior, a falta dela que não me deixa viver. não, não falo de mim exatamente, mas de nós, humanos. em Íris a personagem começa a perder a memória...uma mulher das letras que começa a se esquecer quem é, quem foi, o que escreveu. pra mim, que dentro das minhas possibilidades caminho, vejo, toco, sinto, escuto e choro, que horrível não seria perder exatamente aquilo que me define enquanto ser humano. sim, eu sei que me definem, mas geralmente costumo ser exatamente do modo como penso que sou. explico, se falarem bem, sim, sou eu. se falarem mal, talvez  seja eu. mas de qualquer forma continuo sendo, mesmo implicitamente, continuo sabendo do que gosto (ou do que não gosto), do que quero (ou do que não quero).não querer ou querer. você sabe o que quer? quando comecei a escrever isso jurei que viraria um poema. mas não, as palavras, assim como nós humanos, sabem o que querem. sabem como se definir e sabem que a indefinição faz parte da vida bem como a definição também faz. nos últimos tempos é mais fácil me encontrar pela indefinição: ela tem conseguido me definir melhor do que pensei que poderia ser definida durante toda uma vida.

e como toda uma vida passar rápido.

quinta-feira, 18 de março de 2010


não há lamentos
precauções  
amores perdidos

a estátua continua
da mesma forma que deixei
quando te deixei

o que fizemos
da vida
que fizemos?

nesses últimos dias
há resquícios de nós dois
e não há mais nada
além de mim só
e você acompanhado

o retrato no canto
sorriu para mim
e eu tão cheia de mim
sorri para o retrato

refletida,
me vi em nós
e adormeci em solidões.

sábado, 13 de março de 2010

Não é que não exista
Simplesmente não cabe
Ficou sem encaixe
Sem jeito
Sem reza

Foi sumindo aos poucos
E aos pouquinhos
Senti
Que virava uma pedrinha

que nem de peso de papel servia mais

Fraca
Desalmada
Fria
Seca
morta.

quinta-feira, 11 de março de 2010

américa


Abertas estão
As veias

Como revoadas
De pássaros molhando seus passos

Flutuam,
Como se quisessem dançar

Farejam,
Como se quisessem caçar

Soluçam,
Como se quisessem comer

Esquecem quem são para viver
E caçam em vão para comer

terça-feira, 2 de março de 2010

tesoura do tempo

Tenho sido um pedaço de nada
Copo de vidro em milhões de pedaços
Cicatriz que não apaga
Ressaca que não se cura
Tenho sido amarga
Amarga criatura

Tenho tido pesadelos
Sonhos envoltos em medos
Cabelos soltos
Cortados pela tesoura do tempo
Tenho sido triste
Triste figura ambulante

Tem me doído o peito
E de tão dolorido
Passa o corpo a me corroer
Não tenho medo
Só falta tempo
E que falta faz o tempo que o tempo em medo transformou.