segunda-feira, 3 de novembro de 2008
saudade é prato que se come quente
prato com gosto amargo
que dói o peito
saudade é palavra matadêra
é fome do ausente
é a vontade do querer
saudade é a fome que arrasta
são os dias sem fim
saudade é a última noite de lua cheia
é a música ao longe tocando numa viagem sem fim
é saudade de mato
saudade de dentro
é palavra cortante
é sentimento presente
por que inventar distâncias?
por que querer o impossível?
por que desejar o intocável?
saudade é chorar
é viver de esperanças
vãs?
tocar o piano
dedilhar a sanfona
experimentar sensações
ai
saudade é um querer sem fim do estar perto
por que existe saudade?
pra existir a presença?
domingo, 26 de outubro de 2008
ói minino
vem tirá essa tristeza que ocê deixô
ói minino
dia clareô
ocê si foi
pedaço levô
ói minino
a primavera
as frô brotô
cadê ocê minino?
cadê?
vem pra ciranda minino
vem tocá
tocá meu coração, minino
ói minino
boto saia pra rodá
ói minino
vorta pra cá
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
fragmentos meus meus fragmentos meus
podia, hoje, ter uma perna maior que a outra, problemas na coluna e muitos problemas de aceitação
usei um aparelho até nem sei que idade
não engatinhei
fui logo andando e apoiando em um cachorro de nome veludo
poodle preto, grande e bonito
a primeira palavra que falei foi tia
a minha vida começou fudida desde o começo
porque isso deu num problema chamado briga eterna com minha mãe
eu não amava ela
ela não me amava
e nós duas jurando que isso era verdade
cabeça dura
coração mole
piano
livros escritos aos 13
uns lixos...
qual pedaço da minha vida eu deixei de "me importar a mim mesma" e só seguir?
caralho
a maioria vai seguindo...
que eu não siga por muito tempo
parar
respirar
analisar
que bom seria, não?
(pensamentos desconexos e conversas profundas, além de imagens avassaladoras... tudo deu nisso)
quinta-feira, 16 de outubro de 2008

meus pensamentos já não eram os mesmos havia semanas.
parecia uma labirintite, uma dor de morte que não passava. estava mal, me sentia horrível.
lia tudo que pudesse para de certa forma sanar esse mal estar. nada, nada, nada.
seria algum pressentimento? não, não podia ser... não tinha disso.
aflição? remorso? solidão?
fato é que... não passava, passaria, sim eu sei, mas de fato no momento exato que eu queria que simplesmente sumisse, não sumia.
um nó seco na garganta.
um samba de cartola.
um drama.
uma noite de sábado em dia frio.
um fim.
um começo trágico.
um amor pertencendo a outrem.
uma viagem sem ida.
uma ida sem volta.
.
..
...
devaneios por horas a fio.
nesses momentos de pesar que os pensamentos vão além e são tomados com café frio.
hei, me dê outro ar pra respirar, sim?
domingo, 12 de outubro de 2008
um certo ney
nada demorado, logo ele chegou. as cortinas vermelhas se abriram e um brilho intenso se fez presente.
o brilho tinha pernas, braços, tronco, cabeça e se chamava Ney.
em cima de um divã avermelhado e com movimentos sincronizados ele imediatamente dispara uma música com ratos na piscina e com idéias sem corresponder a fatos, lembrando um passado longíquo (e bom?)
maravilhoso, encantador, sublime...
Ney, com apenas uma rodada de saia, me deu o maravilhoso gosto de me sentir na época de secos & molhados ... e com ditadura ou não foi o melhor gosto que pude sentir nos últimos tempos
muitos e muitos anos se passaram dessas rodopiadas e maquiagens por vezes agressivas, mas ele continua esplêndido ... ele continua nos deixando de queixo caído
iluminação, perfeita
música, esmagadoramente perfeita
roupa, brilhantemente perfeita
cenário, harmoniosamente perfeito
ney matogrosso não fala, canta. e muito ...
"leve a semente vai
onde o vento leva
gente pesa
por mais que invente
só vai onde pisa"
terça-feira, 7 de outubro de 2008
chaves

tive que sentar naquele banco frio e esperar toda a minha raiva idiota passar.
já era tarde. muito tarde.
as chaves? de novo tinham sumido naquele joguinho de sumoapareço... por que fazia essa tortura comigo? por que procurava maneiras de enraivecer a mim quando na verdade a raiva era daquele sujeito porco que entrou na minha vida e a arrastou para a lama que fazia parte da vida dele?
eu fazia essas perguntas e o frio não cedia.
não havia um isqueiro, um clarão ao longe de uma casa qualquer, não havia nada que lembrasse calor. e o cachecol já era o mesmo que nada.
quase nevava.
raiva devia dar calor, pensei. mas será que de fato sentia raiva? será que de fato era raiva do sujeito ou de mim? será que era necessário conhecer pessoas, culpar pessoas, pensar ser feliz com pessoas, amar pessoas, odiar pessoas? será que era necessário conhecer pessoas para aí então descobrir que os defeitos nunca foram delas e sim seus? será que nós seres humanos duraríamos muito? será que se eu continuar a fazer perguntas idiotas o frio deixa de existir? NÃOOOOOOOOO... veio aquela resposta tão seca como só as respostas no frio podem ser. calei a boca dos meus pensamentos. só pensei calor calor calor calor calor.
revirei a bolsa tamanho família que carregava sempre pesada só para ter mais algum motivo para reclamar. achei as chaves.
ps: gracias ao iuri, do blog umbigo de cristo, pelo desenho!
sábado, 6 de setembro de 2008
p & b
Me fez subir lá (digo, lá lááááá) no alto e disse que não me arrependeria
“a vista é linda, juro”
Só que o caminho foi tão tortuoso, tão cheio de curvas, tão cheio de pedras, tão cansativo...
E ele, com aquele jeito de menino, aquela calma que nunca era passageira me dava raiva, por estar tão cansada, e às vezes me dava agonia, por eu não conseguir ser assim
“Vamos, meu bem” ele me dizia com aquele sorriso como da primeira vez que o vi no retrato em preto e branco
E eu, na minha velhice cansada,despreparada e mórbida quase que desistia a cada pedra, cada passo
Mas aquele verde, misturado com seu sorriso, com seus passos ávidos pelo fim tão “inarrependível”, se é que tal palavra existia, me fazia acreditar que eu podia sim gostar do fim...
Gostar do fim? estranho, né?
Mas ele, com seus “meu bem” ditos a todo momento, como um novo fôlego, me fizeram chegar
Esbaforida, morrendo, velha
Sentei em uma pedra, observei
Ele, pegou em minha mão, me deu um beijo tão terno, me fez perder toda a pequena raiva que poderia ter dele...
“eu falei que você não ia se arrepender”, disse em meu ouvido
Ficamos observando a paisagem, aquilo era tão bucólico comparado com todo aquele wisky, sexo e guetos sujos que o velho bukowski safado fez com que nos aproximássemos
É, não me arrependi
E apenas o abracei